Terça-feira, Junho 30, 2009

O problema em ser CDF

é que a gente não se contenta em simplesmente ir lá e fazer a coisa. Tem que cuidar de todo o entorno e é ISSO que dá trabalho. E nem estou falando de tarefas, de trabalho. É de tudo. Se eu gosto de uma música, por exemplo. Eu tenho que saber de que banda é. Daí eu baixo o álbum e gosto. Daí eu tenho que baixar todos. E saber a biografia de todos os integrantes e as letras das músicas e em que comerciais ela toca e que modelos eles namoram e etc. Filme então, nem se fala. Imagina a logística de decorar a filmografia de todos os atores e diretores, saber se são republicanos ou democratas e fazer o top 5 de cada um. Se for inspirado em livro, tem que ler o livro, e as vezes o livro é bom e então eu quero ler todos do autor e a coisa nunca tem fim. Não é à toa que eu nunca fiz uma pós-graduação.

Agora eu inventei de ir pra academia, porque outro dia me deram o lugar de gestante no ônibus. Eu aceitei, é claro, mas chorei em silêncio e sem lágrimas diante da dignidade perdida. Mas não basta ir à academia, preencher as fichas todas, fazer a merda da avaliação física que já quase te mata ali mesmo e ir bela e faceira se dobrar em cima da bola (no pun intended) na aula de Pilates. Ah se fosse tão fácil.

Tem de comprar roupa de ginástica. Mas não pode ser coladinha que eu não to indo pra academia pra ficar de sem-vergonhice não senhor. Mas roupa muito folgada enrosca nos aparelhos e você sua feito uma camela no cio. E não pode ter estampas de nenhum tipo e tem que custar menos de R$ 100,00 porque eu prefiro gastar meu salário em Melissas. Faz duas semanas que estou procurando e ainda não achei nada que não me fizesse vomitar.

E tem que comprar tênis, porque as acadêmias e o meu joelho não aceitam que eu me exercite de All Star. Tênis de ginástica são obrigatoriamente horrorosos e fazem com que eu me sinta pobre. Não tem glamour, não tem cheirinho bom e tem sempre algum detalhe prateado. Odeio. Quero fazer ginástica de Melissas.

E tem a comida de academia. Eu não consigo me imaginar indo pra academia depois de jantar bife a milanesa com purê de batatas. Academia combina com barrinha de cereais, cereais matinais, frutas e alface. Então eu preciso montar um cardápio composto exclusivamente disso. E comprar uma mochila pra carregar isso comigo o dia todo.

Vocês conseguem perceber a imensa dificuldade da coisa? Quanto dinheiro será aplicado em algo do qual eu provavelmente vou enjoar em dois meses (a quem estou querendo enganar, eu vou enjoar em duas semanas).

Acho que vou desistir. Pensando bem, não é tão ruim ter lugar garantido no bumba, mesmo que às custas da minha dignidade. Eu já não tinha muita mesmo antes disso.

Terça-feira, Junho 23, 2009

Vida congelada

Nego critica os pobres eminhos que enchem seus fotologs (ainda existe flogão??) e orkut de autofotos e bota a culpa nas câmeras e na inclusão digitais. Claro que minha cara derrete de vergonha também, mas eu amo as cameras e a inclusão digitais e as autofotos. Eu tiro milhares de autofotos que fariam sua cara derreter de vergonha também.

Eu gosto de congelar os momentos todos. Tiro foto de tudo, da roupa nova, da maquiagem bonita, da maquiagem cagada, da casa arrumada ou desarrumada, das flores, do cocô de cachorro que parece uma arroba. A diferença de mim pros eminhos é que eu não tenho flogão e guardo a maioria dessas imagens só comigo.

Antes, a gente não podia fazer isso. Porque câmera custava caro, filme custava caro, revelar o filme custava caro. Eu tenho tipo 3 fotos da minha infância. Não sei se meus filhos serão belos porque não sei se fui um bebê bonitinho. E isso me dói. Eu tenho lua em câncer e me agarro ao passado com um desespero fora do comum. Gosto de ver, pegar, cheirar, chorar em cima do que não volta nunca mais. Por isso congelo tudo em milhares de fotos.

Pra ver cada ruga nova, pra lembrar de um olhar azul que me encantava, pra saber qual cor vai bem com qual, para rir de novo do que aconteceu ha tanto tempo. Mas principalmente porque tudo isso me faz ter vontade de tirar fotos novas. E para isso é preciso viver.

Confort food


Sempre me agradou brincar de fazer comidinhas, mas rolava uma puta preguiça de aprender de fato. Preguiça e minha intolerância à críticas fizeram com que eu passasse 26 anos afastada do fogão. Quando eu casei, rolou um certo desespero na família, que achou que eu ia viver de cheetos. Mas o marido da vez cozinhava bem, não permitia que eu chegasse a mais de 3 metros da cozinha, todo mundo se acalmou e eu me fiz de morta. Depois eu separei e novo desespero da família, que mandou quilos de congelados e recomendações sobre como operar o microondas.

Enquanto tudo isso acontecia, eu fazia minhas experiências e vou te contar, era frustrante. Num dia o arroz saia sopa. No outro, pedra. No outro, com gosto de vômito. Queimei sopa Campbells, queimei miojo, queimei nuggets e botei fogo na cozinha duas vezes. Cada vez que alguém cuspia o que eu cozinhava, eu jurava que ia desistir. E eu acho que se minha mãe não tivesse morrido, eu teria mesmo desistido.

Mas né. Quando as pessoas perdem alguém de quem gostam muitíssimo, criam uns mecanismos bizarros para prolongar a permanência dos sentimentos e sentidos ou para tentar ignorar a ausência ou só para confortar o coração. E foi mais ou menos isso que aconteceu. Quando fomos separar as coisas depois do enterro, achamos uma tonelada de cadernos de receitas escritos por ela. Eu nem disse nada, todos acharam simplesmente óbvio que essa herança fosse minha.

Comecei a folhear por curiosidade, para abrandar saudades só. Um dia animei e fiz uma das receitas e a sensação foi ótima. Era como se fosse uma homenagem, uma forma de manter vivo o “legado”, de passar adiante o que ela havia construído. Era também o mais próximo de conexão com ela que eu poderia ter. E o melhor: a comida ficou bem boa – panquecas – e virou minha especialidade. Hoje, a minha é melhor do que a dela.

Mas a partir daí, comecei a tomar gosto pelas horas picando, moendo, amassando, medindo, temperando, mexendo. Acho incrivelmente terapêutico e fico num bom humor inacreditável quando invento algum prato. Poucas coisas me deixam mais feliz do que oferecer jantares bem gordos para dúzias de pessoas ou descobrir um livro realmente bom de receitas. E é uma das poucas – talvez a única – coisas em que eu me aprovo pra valer.

Apesar do início torto, valeu a pena ter insistido. Hoje ninguém mais cospe minhas comidinhas e eu sonho com o dia em que ganharei uma bolada na megasena e poderei dedicar todos os meus dias a cozinhar para os amigos enchendo a cara de vinho durante o processo. É um bom vislumbre de aposentadoria.


*Pra quem também gosta do tema comidinhas e está começando a se arriscar na área, recomendo o livro da Nigella, a gordinha bonita do programa de TV: Nigella Express. Dezenas de receitas ridículas de tão fáceis e muito, muito rápidas. Fiz um macarrão com queijo espetacular em 30 minutos ontem - o da foto lá de cima. E tem um capítulo inteirinho sobre confort food. Nham.

Terça-feira, Junho 09, 2009

I hate myself and I want to die

Taí uma frase que 9 entre 10 adolescentes escreve em seu diário. Quem verbalizou foi o Nirvana, mas acho que é versão de uma outra música. Ou não, minha memória do grunge se apaga um pouco mais a cada dia. Mas fato é que todo mundo sofre de autopiedade vez por outra. Ou não, talvez só a minha roda de amigos. Enfim. Eu utilizo a autopiedade como passatempo. É super adequada para aquelas horas em que vc está tipo esperando o ônibus sem nenhum livro e não quer fazer um balanço da sua vida, ou um orçamento doméstico ou um plano de carreira ou qualquer coisa que o valha, só deixar o pensamento vagar.

Dependendo do meu humor, meu pensamento pode escolher uma entre duas rotas invariavelmente. Quando estou feliz, gosto de imaginar o que faria se ganhasse na Mega Sena. Consigo passar ho-ras imaginando casas, viagens e orgias regadas a champanhes cujos nomes eu nem sei pronunciar. Consigo fazer a lista de quantos gatos e cachorros eu teria, quais seriam seus nomes e se eles viajariam ou não no meu barco, que também teria um nome espirituoso. Consigo me imaginar diante das atendentes da imobiliária de Curitiba jogando um bolo de dinheiro em suas caras e apagando meu nome de seu sistema. Ou então pagando o advogado mais caro do Brasil para foder com a vida delas. É um mundo de deliciosas possibilidades.

Porém, se eu estiver triste, gosto de pensar em opções de suicídio. Antes que se crie um alarde desnecessário ou se que organize uma intervenção, deixo claro que o simples fato de eu verbalizar esse tipo de coisa significa que eu jamais me matarei. Continue lendo e descubra por que eu viverei plenamente todos o tempo que me resta antes que o cancêr, a (ou o?) efisema, o AVC, o infarto ou qualquer outra dessa pragas que vocês, não fumantes, rogam efetivamente me alcance e me leve lenta e dolorosamente para o descanso eterno.

Pensar em métodos suicidas funciona mais ou menos como um quebra-cabeças em busca da morte perfeita. Faz anos que penso nisso e ainda não achei uma solução que preencha a todos os meus requisitos de boa morte. Como toda capricorniana, sou pau no cu e exigente, cheia de requisitos, então esse é um exercício difícil e que toma muito do meu tempo. Ainda não montei uma planilha excel de prós e contras, mas cogito a possibilidade. Eu acho que tem que ser uma coisa discreta, possivelmente indolor e que pareça um acidente, para não chocar as pessoas que ficam. Mentira, é principalmente para que eu não fique conhecida pelas próximas gerações da família como "aquela que se matou". Tem três casos na minha família e eu nem sei os nomes das pessoas, são só o tio que se matou, a tia que se matou e o marido da tia que se matou. Triste. Vamos, então, às opções do cardápio:

Tiro: Questão 1: suja. Não gosto de imaginar que alguém vai ter que limpar e provavelmente ficará me amaldiçoando e gerando mais karma ruim para minha alma, que já estará bem fodida, se de fato existir. Questão 2: pode dar errado. É bem improvável, já que este método está entre os mais eficazes, mas eu já ouvi histórias de gente que atirou 1 mm pro lado errado e ficou vegetando. Vegetando e cheio de cicatrizes. Vegetandop, cheio de cicatrizes e sem poder terminar o que começou, mundialmente conhecidos como os maiores losers da história. Questão 3: não conheço o submundo do crime, nunca vi uma loja de armas e ficaria muito paranóica se precisasse comprar uma. Reprovado.

Queda: Leia meus lábios: n-e-m-f-o-d-e-n-d-o. Tenho horror de altura, tenho horror da bundgee jumping, tenho horror daquele brinquedo do Hopi Hari que despenca de 20 metros de altura e da sensação do estômago literalmente andar até a boca. Se eu escolhesse esse, ia ficar a queda toda me chamando de idiota e não é assim que quero passar os últimos segundos em minha doce companhia.

Veneno: Nip Tuck me fez desistir, mostrando que não é sereno nem pacífico, que você se vomita todo e sente dores excruciantes. Além disso, sou glamourosa demais para tomar algo indicado para ratos.

Remédios: envolve intensa pesquisa até descobrir o tipo e a dosagem certos. Depois, mais suor para conseguir a receita (se bem que eu sempre recebo spams me oferecendo toda a farmacologia disponível a um clique). Mas nesse caso, Ruy Castro me fez desistir, demonstrando a possibilidade de coisas darem errado e eu morrer afogada na privada (em "Carmem" ele conta um causo de uma atriz que armou todo um esquema luxo e glamour para suicidar-se, encheu a casa de velas e perfumes, fez o cenário da diva e se entupiu de barbituricos. Daí começou a passar mal e decidiu ir vomitar no banheiro pra não estragar a cena. Grogue dos remédios, tropeçou, bateu a cabeça na privada e morreu afogada. Or something like that. Deus me livre).

Metrô, trem, viadutos e afins: Odeio suicida performático que atrapalha o trânsito ou o nosso direito de ir e vir. Jamais.

Cabeça no forno: confesso que gosto muito desse. Acho romântico, limpo e indolor. Mas como não provocar uma explosão? Nunca entendi como as divas faziam.

Carburador do carro: Idem acima. Mas quem tem garagem hoje em dia no Brasil? Na garagem do prédio levaria umas três semanas e daí eu já teria mudado de idéia.

Forca: Não é indolor, mas é quase limpo e tem um certo charme vintage. Três coisas me incomodam: deve demorar e isso deve ser um pouco chato, não tenho onde pendurar a corda e a pessoa que me achar vai levar um puta susto. Deve ser uma visão do inferno achar alguém roxo, de língua de fora e todo cagado, balançando na cordinha. Não gostaria de criar esse trauma na vida da minha faxineira.

Afogamento: eu nado bem e simplesmente não consigo não nadar, estando na água.

Fora isso tem toda a logística relacionada: deletar os blogs, orkuts e twitter (e se eu mudar de idéia na hora H, depois de ter apagado todos eles???), escrever as cartas de despedida tentando convencer as pessoas que você não é um completo egoísta, terminar de ler todos os livros que estão na fila, não saber como vai ser o final de Lost... Dá MUITO trabalho e eu jamais teria saco para organizar tudo isso.

O que me atrai nessa história toda é o quebra cabeças mesmo, tentar achar um jeito que não tenha um "mas" envolvido. Aparentemente, não existe e morrer é sempre uma merda. Mas que pensar nisso tudo faz o ônibus chegar rapidinho, isso faz.

* Se você quer conhecer outras opções, clique aqui.
* Se vc não quiser ler posts gigantes, escolha outro blog.

Terça-feira, Maio 26, 2009

Tédio

Não tem aqueles dias em que vc acorda e se pergunta: "eu preciso MESMO sair daqui? Pra que?". Não que a cama esteja quentinha e gostosa, se for só isso é ótimo. Mas porque as respostas para o seu por que parecem tão idiotas... Eu preciso sair daqui porque tenho contas a pagar. Eu preciso sair daqui porque tem louça de seis dias na pia. Eu preciso sair daqui senão serei mandada embora de um trabalho que não significa absolutamente nada para mim. Eu preciso sair daqui porque senão terei que conversar com meu marido. Eu preciso sair daqui porque estou ficando velha e não arrumei um homem ainda e morrerei sozinha, afogada no meu próprio xixi. Eu preciso sair daqui porque senão vão pensar que sou vagabundo.

Ultimamente tenho acordado assim com frequencia. Eu não consigo encontrar uma única justificativa realmente boa para me levantar, o que é uma coisa bastante loser de se admitir. Geralmente eu me levanto porque já não aguento mais de vontade de fumar ou fazer xixi, então podemos concluir que meu vício e minha minúscula bexiga colaboram com a manutenção da minha sanidade. Mas ainda não me parecem motivos realmente bons para abandonar a cama.

Ganhar um milhão de dólares é um bom motivo para abandonar a cama. Ir para o Alaska, alimentar o cachorro, receber amigos, assistir seriados e mergulhar também. Não saber como vai ser aquele dia nem todos os outros pelo resto de sua vida ajuda. Mas nada disso acontece com frequencia. Quase nunca acontece.

Do alto dos meus trinta anos, eu ando com a impressão de que podem mudar os atores e o cenário, mas o enredo da minha vida vai ser sempre igual. E ele é tão entediante que eu prefiro dormir.


* Outro dia acordei com vontade de aprender a aplicar sombra nos olhos. Me pareceu um motivo muito bom, mas se mostrou um FAIL em caixa alta. Fiquei parecendo um travesti da rua Aurora e voltei pra cama mais deprimida, por constatar mais uma coisa que eu não sei fazer.

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Da intolerância literária

Eu gosto de literatura ruim. Harry Potter, Crepúsculo, Bridget Jones e seus derivados, Melancia... A lista é infinita. Tem desenhos na capa? Tem muherzinhas rosadinhas na capa? Tem piadinhas irônicas e sagazes? Tem potencial pra virar filme? Eu gosto.

E vc aí do outro lado pensa, tá, e daí? É que revelar isso assim, pros meus 4 leitores o mundo todo é um imenso passo para minha auto-estima. Porque eu sempre li tudo isso em segredo, cheia de culpa e vergonha, perguntado ao Criador por que eu não conseguia ler Hemingway, Dostoievsky, Proust ou qualquer outro escritor de nome difícil com a mesma voracidade. Eu queria tanto ser inteligente!

Na minha outra casa eu tinha até uma estante da vergonha, onde toda a literatura ruim ficava escondida atrás da "Coleção Folha Grandes Escritores", cheia de Marguerite Duras, Henry Miller e Thomas Mann, comprada em 2002 e ainda no plástico. E tinha uma capa falsa pra embrulhar os Sidney Sheldon e Stephen King que eu devorava no ônibus.

Esta é a coisa mais idiota que eu já revelei na vida, mas eu simplesmente não conseguia lidar com o fato das pessoas pensarem que eu era o tipo de gente que lê esse tipo de coisa, porque este era um tipo de gente que eu mesma desprezava. Toda uma intolerância arraigada, desde a faculdade, quando cheguei saltitante e despreocupada com "Se houver amanhã" debaixo do braço e uma colega fez um escândalo tão grande que quase chamaram a polícia. Para prender a mim, por ousar ir para a faculdade com aquilo. Desde aquele dia, decidi que jamais passaria tal humilhação novamente. Eles iam ver só.

E foram anos e anos lendo uma tonelada de clássicos. Livros chatíssimos, mas eu fazia aquela cara de "Brilhante!" e me convencia que a felicidade residia em absorver cultura. As pessoas passaram a me respeitar, mas eu ainda não estava feliz. Sentia falta de aventuras mirabolantes, de piadas bestas, de zumbis e de elfos. Então eu aprendi a fingir e me encontrei. Os colegas de cafés filosóficos e leitores do meu perfil no orkut acreditavam que meu livro favorito era Crime e Castigo. Daí eu chegava em casa e me acabava com o Prisioneiro de Azkaban. Uma década de vida dupla. De dia Maria, de noite, nerd.

Hoje, graças a algo ainda mais vergonhoso chamado "Sessão de auto-ajuda", eu consigo me assumir publicamente perante a sociedade letrada. Joguei fora a estante da vergonha e exibo minha caixa importada de Lord of The Rings orgulhosamente na sala. Folheio Gossip Girl na Livraria Cultura sem me preocupar se alguém está vendo. Compro livros sobre participantes de reallity show gordas sem nenhuma dor. Para o bem ou para o mal, estou curada da minha empáfia, e bastante menos culta.

Mas em verdade, em verdade vos digo: Balzac é chato pra caralho e café filosófico de cu é rola.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Em casa, finalmente

Poisé, mané, voltei pra casa. Um ano depois, tô de volta a SP. No fim, parece que eu nunca nem fui. E acho que nem devia ter ido.

Mas agora é casa nova de novo, arrumar mudança de novo, fazer obra de novo. Eu abro a minha janelona de manhã e vejo todo aquele caos, poeira, buzinas, atropelamentos, fugas e sinto uma paz tão grande. Nunca mais ouvi um único passarinho. Um único papagaio. Nunca mais atravessei a rua sem olhar pros dois lados. Já tomei chuva e andei na água de leptospirose. Feliz da vida porque tô de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade.

Sorrio pras moças de cabelos e roupas coloridas, pros moços de saia e chinelo, pras velhinhas de decote até o umbigo, pros velhinhos passeando com os cachorrinhos, pro vendedor de bala no sinal, pros ratos debaixo da ponte, pros malucos que falam sozinhos, pras primas da Augusta, pros ônibus que sacolejam e pra toda a feiúra de SP. Cidade mais linda do mundo, por causa de tanta feiúra. Se tem lugar melhor, me recuso a admitir. Piores são todos. Igual não existe.

E não discuta comigo. Discutir com uma pessoa apaixonada é a coisa mais idiota que alguém pode fazer. E eu estou vivendo meu grande e eterno e infinito amor. Felizes para sempre.

Aqui, e cerveja? Ainda vende nessa cidade? Ninguém me convida mais não?

Domingo, Abril 05, 2009

Nirvana

Lendo o Twitter, descubro, desolada, que hoje faz 15 anos que Kurt Cobain deu-se um tiro na cara e virou ícone de uma geração. 15 ANOS, porra. E eu lembro direitinho do dia. Estava lavando louça, ouvindo rádio e praguejando contra minha mãe por me obrigar a lavar louça. Entrou o plantão e deu a notícia e eu fiquei chocadísima. Sentei na cadeira com a mão cheia de sabão e chorei por horas.

É ridículo, eu sei. Mas eu tinha 15 anos e o Nirvana tinha mudado minha curta vida. Sem exagero. Até ouvir Smells Like Teen Spirit pela primeira vez, minha adolescencia não tinha sido lá das mais legais. Graças ao Nirvana eu encontrei um monte de gente que também se achava inadequada para a sociedade. E graças ao Nirvana a gente aprendeu o que fazer com essa inadequação, com o cabelo ensebado e com a falta de senso fashion.

Kurt Cobain não sabia o que fazer da vida e, por isso mesmo, entendia nossa dor e ganhava dinheiro com ela e o Nirvana fazia a gente sonhar em ser rock star sem precisar mudar nada, usando tênis rasgado e com a cara cheia de espinha. Ele não era bonito, nem descolado, nem simpático, nem nada. Ele nem cantava bem. Não havia nada, portanto, que nos impedisse de ser como eles.

Graças a ele, também, eu passei os 5 anos seguintes usando uma camisa xadrez horrorosa e sem pegar ninguém. Mas aí a culpa é da minha falta de discernimento, não dele.

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Latino

Tave eu lá curtindo mais um sábado triste e solitário (o penúltimo) vendo BBB, quando começa festa com Latino. Quasimorro de inveja. Porque eu AMO o Latino. De verdade. Desde os primeiros tempos, desde "baby me leva que o futuro nos espera", ele me faz levantar, tirar os óculos, jogar o livro pseudo-intelectual pela janela e fazer as coreografias todas. Tem coisa mais poética que "desculpa eu, desculpa Kátia"? Não tem.

Latino me deixa feliz de verdade. Porque o brega é felicidade, gente. O brega é liberdade, é alegria, o brega é amor. E eu não estou fingindo que gosto de Latino para parecer cool, porque ser brega agora é cool, né? Eu REALMENTE amo o Latino. Eu REALMENTE tenho a discografia dele no computador e boto pra tocar quando me sinto triste.

Porque tem dias que você QUER sofrer, você quer chorar escorregando atrás da porta e deixando o rimel e o ranho escorrerem livremente, gritando "eu quero morreee-eee-eer". E daí você põe um Chico Buarque e sofre dicumforça e com a trilha sonora apropriada, imaginando que sua vida é uma novela ruim.

Mas tem dias que sofrer não tem glamour nenhum e é só uma aporrinhação do caralho. E pra que gastar uma fortuna com Prozac se você tem Latino de graça na internet?

Quinta-feira, Abril 02, 2009

Oi, bem-vindo ao meu trabalho


Oi, bem-vindo à minha vida


Quarta-feira, Março 25, 2009

Para a minha mãe

E lá se vão quatro anos. As coisas que você me deu estão ficando gastas, bolorentas, rasgando e perdendo a cor. Os vestidos de festa que você fez estão lá no cabide, mas mal cabem, porque eu engordei um monte. Seu perfume está guardado na minha gaveta, ainda cheio, mas eu não tenho coragem de abrir.E tem as cartas, bilhetes, fotos. Eu evito, porque tudo que eles trazem são um monte de lembranças. Lembrar é muito pouco quando se ama tanto.

E as vezes eu tenho medo de esquecer como era sua voz e o gosto do seu bife à milanesa, porque eu já não sei mais qual era sua cor favorita. Acho que era roxo. Era? Não sei qual a relevância de lembrar disso tudo, mas me recuso a não lembrar. Cada coisa que esqueço, é um pouco mais de você que deixo ir embora, e se mais de você for embora, eu acho que não paro de pé. Ainda não aprendi.

Porque tudo isso é placebo, mas foi só o que sobrou. Não dá mais pra te ligar desesperada e perguntar "o que é que eu faço agora????" e fazer exatamente o que você disser. Eu ainda pergunto, mas você nunca responde. Ia ser estranho mesmo se respondesse. Eu ia ter de ligar pra Zibia Gasparetto e tals. E eu até tento pensar no que você faria, mas você tinha de ser essa criatura tão imprevisível só pra deixar tudo muito mais difícil, né?

Nisso a gente errou feio, TÃO feio. Você me ensinou a falar, ler, ser honesta, educadinha e classuda, mas não me ensinou a viver sem você, nem por quatro anos, quatro minutos, quatro séculos, nada. Você tava lá, sempre, sabendo tudo de tudo. E a gente nunca cogitou a hipótese de que não ia ser pra sempre. E agora eu fico aqui, ainda, me largando pelos cantos, fungando e fazendo mimimis que ninguém mais aguenta ouvir.

Sim, eu sei que não adianta nada ficar fazendo mimimi sobre isso. Mas achei que você precisava saber dessas coisas, saber que eu estou me esforçando de verdade e todos os dias pra continuar sendo o que você esperava que eu fosse, mas que eu decidi não ser como você. Porque a falta que você faz é insuperável e imensa e eu não quero fazer essa falta para ninguém. Espero que considere o altruísmo da minha decisão antes de me chamar de covarde :-). E, ainda que eu te odeie por toda essa porra de saudade, eu te amo mais por ser capaz de provocar uma saudade desse tamanho. Sei que você - e mais ninguém - entende o que eu estou dizendo, porque consigo me lembrar da sua voz dizendo. Que alívio.

Terça-feira, Março 17, 2009

Carnaval, futebol e eu odeio Cláudia Leite


Vendida
Upload feito originalmente por sussu1
Futebol já foi peça importante da minha vida. Mais novinha, eu ia ao estádio com meu irmão pelo menos uma vez por mês e sempre acabava a partida abraçada a trinta outros torcedores, gritando "ah, juiz, vai tomar no cu". Sabia a escalação do meu time e entendia até o significado de impedimento.

Daí passou. Sei lá por que. Peguei birra, não podia nem ouvir falar, aposentei a camisa. Vai ver que essa coisa de ganhar muito, sempre, me fez perder a emoção. Porque eu gosto mesmo de sofrer.

Então, neste final de semana, meus calégas me levaram ao jogo do Paraná Clube, grande representante da segundona nesse glorioso estado. Foi sensacional. O paraná PERDEU para um time que tinha 5 torcedores no estádio e do qual eu nunca tinha ouvido falar. Muito sofrimento, muitos gritos, muito xingamento. E eu descobri que torcer pra time ruim é uma delícia, porque é tão raro, mas tão raro ele ganhar, que quando ganha a gente fica em êxtase uns 10 dias.

Torcer pra time ruim faz a gente se sentir vivo. Claro, quando eu voltar pra minha terra natal, posso me acostumar de novo a uma vida de glórias e glamour futebolístico torcendo pelo SP. Mas uma coisa é certa: Paraná, eu nunca vou te abandonar!

* Estar no meio da torcida do Paraná é como estar naquele vídeo do Bátema, da feira da fruta, sabe? Os torcedores pronunciam cada sílaba dos palavrões de forma bastante nítida, Bátema. É sensacional.

Sexta-feira, Março 13, 2009

Fazendo show off

Não é querer causar inveja em ninguém, não (até porque minha opinião a respeito do tema está logo abaixo), mas eu GANHEI os ingressos do Radiohead. De alguém que gosta muito, muito, muito de mim, porque o ingresso tava custando quase um salário mínimo. Ou seja, além de existir alguém que gosta muito, muito, muito de mim nesse mundo, eu ainda vou de graça (e de bote) no show do ano, quiçá da vida, tamanha é a empolgação do povo.

Eu gosto de Radiohead. Mas quando eles surgiram eu ainda tava na fase punk e não dei a menor chance. Não ouvia, mas tinha certeza que era tudo música dedo no rabo. Depois eu ouvi, até porque não tem como não ouvir uma coisa quando ela fica muito, muito famosa, porque vira música-tema de propaganda de ONG. Confesso que AMAVA a música da propaganda do menininho com Síndrome de Down. Mas ainda assim, não ouviria por princípios. Princípios idiotas que fazem parte da vida quando vc tem 12 anos, mas não deveriam fazer quando vc tem 18, 20. Princípios idiotas dos quais eu ainda não me livrei inteiramente.

Daí tá. Eles vem pro Brasil e eu pensei: po, eu queria conhecer e ter virado fã só pra participar dessa comoção coletiva, porque eu adoro uma turba. Eu daí eu GANHO o ingresso e fico incrível. O mínimo que eu podia fazer era estudar. Baixei a discografia e fui ouvindo e "nossa, essa música é deles? Mas eu gosto tanto! Nossa, e essa também. E mais essa".

Resumindo: eu não merecia ir a esse show. Mesmo tendo descoberto tardiamente que gosto muito. Porque esse é um show para fiéis, não para meros fãs. Eu não conheço ninguém que "goste" de Radiohead. Eu só conheço devotos (devoção é geralmente associada a músicas muito ruins, e nesse caso eu acho realmente que Radiohead é uma deliciosa exceção. Além de ser bem bom, os fãs não são chatos. Só depressivos, o que é até charmoso. Mas pega fã de Doors. De Pink Floyd. De Raul Seixas, Legião Urbana, Los Hermanos. Me deixa duas horas trancada num quarto branco com um desses tipos que eu me mato a dentadas nos pulsos).

Por isso, essa semana ninguém fale comigo. Tô concentrada no intensivão de decorar a discografia e pintar o cabelo de loiro Tom York (acho um luxo). Até dia 22 já estarei madura o suficiente para chorar histéricamente em cada acorde e para achar até a respiração deles uma lufada de genialidade. Eu tenho que merecer o meu presente.

Quarta-feira, Março 04, 2009

Inveja, grandes merdas

BBB está eletrizante, como vocês, pessoas antenadas, inteligentes e ocupadas como eu, devem estar acompanhando. Eu me emociono todos os dias, mas não estou pessoalmente envolvida com nenhum participante, não tenho um favorito. Até da Prianha ando meio de bode. Então, eu não adoro ninguém, mas eu odeio algumas pessoas. Odeio com todas as forças do meu coração. Flávio (grande decepção). Naná. Cadela do nariz de batata. Josi. Odeio.

E este é o grande serviço que o BBB presta a mim, pessoalmente. A possibilidade de canalizar meu ódio e meu desprezo a seus participantes e não a pessoas da vida real. Percebo que durante o programa todos os meus relacionamentos melhoram, porque eu fico ocupada demais com os relacionamentos DELES, para estragar os meus. Obrigada, Boninho. Obrigada, Bial. Obrigada, Brasil.

Essa semana, em particular, estou tensa com a briga entre a Fran e a cachorra do nariz de batata, cujo nome me recuso a pronunciar, porque eu vomito. Eu gosto da Fran. Ela é engraçada e boba e eu caguei se tudo aquilo que ela faz é real ou não. Porque me faz rir e é pra isso eu assisto aquilo lá, pra rir e pra chorar. Se eu quisesse vida real, lia o jornal. O que eu não faço, porque suja o dedo e é muito chato.

Mas enfim. Elas brigaram. E a cadela já havia brigado com minha outra queridinha, Milena. E a desculpa da cadela é sempre a mesma: todo mundo tem inveja dela. As demais loiras da casa assinam embaixo. Todo mundo tem inveja delas três. Mas eu nunca vi elas dizerem POR QUE as pessoas teriam inveja delas. Porque eu não vejo nada de invejável ali, absolutamente. Em nenhuma delas.

E é por isso que eu odeio esse argumento e as pessoas que usam esse argumento: "fulano me trata mal porque tem inveja de mim". "Eu sempre sofri muito na vida porque as pessoas tinham inveja de mim e me boicotavam". "Não fui promovido porque o chefe tinha inveja de mim". Inveja, pra mim, é conversa pra boi dormir.

TODAS as vezes que ouvi esse tipo de coisa foi de gente:
a) chata pra caralho
b) burra pra caralho
c) incompetente pra caralho
d) vazia pra caralho

E que não tinham amigos nem progrediam na vida por uma dessas razões. Só isso, mais nada. Nenhuma pessoa realmente legal se incomoda ou se sente alvo de inveja. Pelo menos, não nenhuma que eu conheça.

Por isso eu acho que essa coisa de inveja foi a desculpa mais conveniente que já inventaram para as pessoas continuarem sendo péssimas pessoas e botarem a culpa nos outros.

E por isso eu acho mesmo que a Fran devia quebrar a cara da cadela*. Fez a fama, deita na cama. Quero ver a cadela dizer que alguém tá com inveja da cara amassada dela.

* Mas só depois que ela ganhar o programa, senão é eliminada. Por enquanto, ela podia só jogar as roupas todas da outra na cândida e as maquiagens na piscina.